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Arquitetura do Impossível
Grande estrutura de aço cinza-clara com dois braços curvos girando ao lado de um aqueduto de concreto sustentado por pilares em forma de anel; uma gôndola com barco está a meio caminho, e há um prédio de telhado inclinado à direita e pessoas olhando de um gramado A roda a meio giro, em 2015: à esquerda, o aqueduto que vem do Union Canal; no centro, uma das gôndolas a caminho do alto. — Colin · CC BY-SA 4.0
Obra 30 · Mundo

Roda de Falkirk

Tamfourhill, Falkirk, Escócia, Reino Unido · 2000–2002

Ligar dois canais separados por 35 metros de desnível, onde antes havia onze eclusas, com uma máquina de mais de mil toneladas que gira inteira levando barcos e água em duas gôndolas que ficam sempre na horizontal.

Em Falkirk, na Escócia, no Reino Unido, dois canais abertos entre os séculos XVIII e XIX se encontram com 35 metros de diferença de altura. Até 1933 uma escada de onze eclusas vencia esse desnível; depois ela foi desmontada, e nos anos 1960 os dois canais fecharam. Quando a British Waterways decidiu reabri-los de costa a costa, no projeto chamado Millennium Link, faltava justamente o nó do meio.

A resposta foi a Falkirk Wheel: dois braços de aço em forma de hélice, presos a um eixo, que giram meia volta em cerca de cinco minutos levando duas gôndolas cheias de água, uma subindo e outra descendo. O truque é antigo. Pelo princípio de Arquimedes, um barco que entra na gôndola desloca exatamente o próprio peso em água, então as duas pontas pesam sempre o mesmo, e a máquina inteira fica em equilíbrio.

FICHAFicha da obra

Por quêReconectar o Forth & Clyde Canal (1790) e o Union Canal (1822), separados desde que as onze eclusas de Falkirk foram desmontadas em 1933. O Forth & Clyde fechou em 1963 e o Union em 1965.2+ fontes
Quem quisA British Waterways, dentro do Millennium Link, a restauração dos dois canais de ponta a ponta, 110 km entre Glasgow e Edimburgo, com obras a partir de 1999.2+ fontes
ArquiteturaTony Kettle, do escritório RMJM.2+ fontes
Projeto e fabricaçãoButterley Engineering, de Ripley, no Derbyshire, Inglaterra, que projetou, fabricou e montou a roda; Arup como consultora estrutural; Tony Gee & Partners e Bennetts na estrutura e na mecânica.2+ fontes
Empreiteira principalJoint venture Morrison–Bachy Soletanche.2+ fontes
OperáriosCerca de mil pessoas segundo uma fonte; mais de quinhentas segundo outra. Nenhum registro de época dá o número.diverge
PrazoObras civis desde 2000; peças fabricadas e montadas em teste na fábrica no primeiro semestre de 2001, levadas a Falkirk em 35 carretas e içadas em agosto de 2001; inauguração em 24/05/2002.2+ fontes
Desnível35 metros segundo a Scottish Canals e a história local: 24 da roda e cerca de 11 de duas eclusas. Reportagens de época dão 34 m ou 25 m.diverge
Custo da roda£17 milhões, £17,5 milhões ou £20 milhões, conforme a fonte.a diferença pode estar no que cada conta inclui (bacia e acessos)diverge
Custo do Millennium Link£78 milhões no orçamento divulgado em 2001; a dona dos canais fala hoje em £83,5 milhões, e outra fonte em £84,5 milhões. A loteria nacional, pela Millennium Commission, pôs £32 milhões.diverge
Mortes e acidentesNenhuma morte registrada nas fontes consultadas. Em abril de 2002, uma sabotagem soltou mais de 80 milhões de litros de água sobre o poço da roda e danificou a hidráulica e a eletrônica.o dano foi estimado em £200 mil em maio de 2002; outra fonte dá £350 milsem registro
EquilíbrioAs duas gôndolas pesam sempre o mesmo, com ou sem barco, pelo princípio de Arquimedes.2+ fontes
Energia1,5 kWh por meia volta. A dona compara a ferver oito chaleiras; um engenheiro do Institution of Civil Engineers escreveu três ou quatro.a comparação com chaleiras diverge; o kWh não2+ fontes
MotoresDez motores hidráulicos segundo a maioria das fontes; doze segundo uma reportagem de 2001.diverge
PeçasCerca de 15.000 parafusos e 45.000 furos: as juntas são parafusadas, não soldadas, para aguentar a fadiga de um braço que passa de tração a compressão a cada volta.2+ fontes
PúblicoCerca de 400 mil a 500 mil visitantes por ano, conforme a fonte.diverge
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

01Onze degraus desmontados

O Forth & Clyde Canal abriu em 1790 e atravessava a Escócia de Grangemouth, no estuário do Forth, até o rio Clyde. Em 1822 chegou a Falkirk o Union Canal, que vinha de Edimburgo. No encontro dos dois, uma escada de onze eclusas, espalhadas por quase uma milha, vencia os 35 metros de diferença.

A ferrovia tirou o movimento dos canais. As eclusas de Falkirk foram desmontadas em 1933. O Forth & Clyde fechou à navegação em 1º de janeiro de 1963, e o Union em 1965. Trechos foram aterrados, cortados por estradas e conjuntos habitacionais. Quando o Millennium Link começou, em 1999, a ideia era refazer mais de 120 estruturas, entre eclusas, pontes e trechos enterrados, e reabrir 110 km de canal entre Glasgow e Edimburgo. Em 2001 os canais já voltavam a ter barcos. Faltava Falkirk.

FIG. 02Maio de 2001: o novo trecho do Union Canal em obra, no caminho que levaria os barcos até a roda.Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0

02Uma licitação que nem o cliente queria

O edital, de projeto e construção, sugeria uma roda-gigante de estilo vitoriano, com quatro gôndolas penduradas, e todos os concorrentes orçaram isso. Segundo a revista Construction News, em maio de 2001, nem o cliente gostava. O engenheiro-chefe da British Waterways na Escócia, George Ballinger, admitiu à revista que esperava projetos mais ousados, mas que não deu aos concorrentes tempo nem incentivo suficientes para isso.

A equipe escolhida, a joint venture Morrison–Bachy Soletanche com a Butterley Engineering, foi chamada para uma reunião e orientada a deixar os desenhos para trás. Seguiram-se sessões de brainstorming de cerca de um mês, com umas duas dezenas de pessoas, em que apareceram rodas horizontais, guindastes, um funicular e até um balão cheio de água que tombava. O que saiu foi a forma de hoje, conduzida pelo arquiteto Tony Kettle, do RMJM. Em 2001 ele descrevia a roda como um navio viking com hélice ou a caixa torácica de um peixe; outras descrições falam em machado celta e em costelas de baleia.

FIG. 03A bacia inferior em obra, com um dos pilares da roda em andaimes e a estrutura do centro de visitantes ao fundo, em 2001.Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0

03Arquimedes faz o trabalho

Cada braço tem um furo circular em cada ponta, e nos furos encaixam as duas gôndolas, calhas de aço com cerca de 250 toneladas de água e espaço para quatro barcos cada. Quando a roda gira, um sistema de engrenagens faz as gôndolas girarem no sentido contrário e na mesma velocidade, de modo que a água e os barcos ficam sempre na horizontal.

O equilíbrio vem de uma regra de mais de dois mil anos. Um barco que entra na gôndola desloca o próprio peso em água, que sai pela comporta. Por isso as duas pontas pesam igual, com barco ou sem. A máquina não precisa levantar peso, só vencer o atrito e a inércia: meia volta leva cerca de cinco minutos e consome 1,5 kWh. Para isso, as gôndolas precisam estar com o nível d'água exato. Segundo a New Civil Engineer, em 2001, a tolerância era de 37,5 milímetros; fora disso, o computador não deixa a roda girar.

A roda ergue os barcos 24 metros. O resto do desnível fica com duas eclusas novas no Union Canal. No caminho até a roda, os barcos atravessam ainda um aqueduto de 100 metros e um túnel, o Rough Castle, que passa sob uma estrada, sob a ferrovia Edimburgo–Glasgow e sob a Muralha de Antonino, a fronteira romana do século II.

FIG. 04Agosto de 2002, três meses depois da inauguração: o aqueduto chega pelo alto e termina na roda, sobre a bacia do Forth & Clyde.KlausFoehl · CC BY-SA 4.0

04Parafusos, não solda

A cada volta, partes dos braços passam de tração total a compressão total. Essa inversão completa e repetida de esforço é o que mais cansa o aço, e a Butterley respondeu parafusando as juntas em vez de soldá-las, porque a ligação parafusada resiste melhor à fadiga. A conta da New Civil Engineer: 15 mil parafusos e 45 mil furos, o equivalente a 7,5 toneladas de aço perfurado.

Os parafusos tinham outra vantagem: a roda podia ser montada inteira na fábrica da Butterley, em Ripley, no Derbyshire, Inglaterra, conferida e desmontada. As peças foram levadas a Falkirk em 35 carretas, entre junho e julho de 2001, remontadas no chão em cinco grandes conjuntos e içadas em agosto por um guindaste de mil toneladas, com precisão de dez milímetros. Por fazer dois içamentos de gôndola no mesmo dia, a empresa economizou dez horas de guindaste e £10 mil, contou o gerente de contratos Paul Hudson à revista.

FIG. 05As engrenagens que fazem a gôndola girar ao contrário da roda, para que a água e os barcos fiquem sempre na horizontal (2003).Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0

05A noite da inundação

Nenhuma das fontes consultadas registra um morto na obra. O desastre veio com a roda pronta. No fim de abril de 2002, segundo a New Civil Engineer, alguém arrombou comportas trancadas com cadeado e soltou mais de 80 milhões de litros de água do canal sobre o poço seco da roda. A inundação durou quatro horas sem ser notada e cobriu uma das gôndolas com três metros de água. O fluido hidráulico foi contaminado, bombas se perderam e a eletrônica teve de secar.

A polícia tratou o caso como dano intencional, obra de pelo menos duas pessoas que conheciam o local. A estimativa do dano em maio de 2002 era de £200 mil; outra fonte fala em £350 mil. A abertura atrasou cerca de um mês, e a rainha Elizabeth II inaugurou a roda em 24 de maio de 2002, no ano do seu Jubileu de Ouro.

FIG. 06O conjunto visto do ar em 2006: do túnel, no alto, ao aqueduto, à roda e à bacia do Forth & Clyde.Ranald McIntyre · CC BY-SA 2.0

06Vinte e cinco anos depois, as eclusas de novo

A roda passou pela maior reforma da sua história entre novembro de 2023 e março de 2024: £2,7 milhões em hidráulica, painéis de controle, sensores, cabos e vedações novos, com 17 semanas de parada, segundo o jornal The Scotsman. O sistema passou a desligar entre um movimento e outro.

Em 2026, a Scottish Canals, dona dos canais, comemorou os 25 anos do Millennium Link e anunciou para o fim de setembro um espetáculo de luz e água na bacia da roda. Mas a notícia maior está logo abaixo dela. As comportas de carvalho instaladas na reabertura duram em média 25 anos, e todas as da escada de eclusas do Forth & Clyde em Falkirk são daquela época. Desde fevereiro de 2025, um trecho de quatro quilômetros está drenado para trocá-las. Em julho de 2026 a obra foi estendida até o início da temporada de 2027, com investimento acima de £8 milhões, o maior nos canais escoceses desde o próprio Millennium Link, segundo a Scottish Canals. A máquina feita para substituir eclusas segue girando; a maior obra dos canais, um quarto de século depois, é consertar eclusas.

MITOSO que circula e o que o registro diz

  • O que circula

    A roda gira com a energia de dez chaleiras.

    O que o registro diz

    Nenhuma fonte encontrada diz dez. A Scottish Canals compara a oito chaleiras; um engenheiro do Institution of Civil Engineers escreveu três ou quatro. O número firme é 1,5 kWh por meia volta.

  • O que circula

    A roda ergue os barcos 35 metros.

    O que o registro diz

    Os 35 metros são o desnível total entre os canais. A roda faz 24 metros; um aqueduto, duas eclusas e um túnel completam o caminho até o Union Canal.

  • O que circula

    Cada gôndola pesa 500 toneladas.

    O que o registro diz

    O que as fontes confirmam é a água, cerca de 250 toneladas por gôndola, e o peso da gôndola vazia diverge entre elas. O fato que importa é outro: as duas pesam sempre o mesmo, com ou sem barco, por causa do princípio de Arquimedes.

  • O que circula

    A forma foi a encomenda original.

    O que o registro diz

    O edital sugeria uma roda-gigante de estilo vitoriano. A forma atual nasceu depois da escolha da equipe, num mês de brainstorming, segundo reportagens de 2001 da Construction News e da New Civil Engineer.

PERGUNTASPerguntas frequentes

Como funciona a Roda de Falkirk?

Dois braços de aço presos a um eixo giram meia volta em cerca de cinco minutos levando duas gôndolas cheias de água, uma subindo e outra descendo, sempre na horizontal. Pelo princípio de Arquimedes, o barco desloca o próprio peso em água, então as duas pontas pesam sempre o mesmo e a meia volta consome só 1,5 kWh.

Quanto a Roda de Falkirk levanta os barcos?

A roda ergue os barcos 24 metros. O desnível total entre o Forth & Clyde Canal e o Union Canal é de 35 metros, e o resto fica com duas eclusas, depois de um aqueduto e de um túnel.

Quando foi construída a Roda de Falkirk?

As obras civis começaram em 2000; as peças foram fabricadas e montadas em teste na Inglaterra em 2001 e içadas em Falkirk em agosto daquele ano. A rainha Elizabeth II inaugurou a roda em 24 de maio de 2002, cerca de um mês depois do previsto, por causa de uma sabotagem em abril.

Quanto custou a Roda de Falkirk?

As fontes divergem: £17 milhões, £17,5 milhões ou £20 milhões, possivelmente pelo que cada conta inclui. O Millennium Link inteiro, a restauração dos dois canais, aparece como £78 milhões no orçamento de 2001 e hoje como £83,5 milhões ou £84,5 milhões.

Por que a Roda de Falkirk foi construída?

Para reconectar o Forth & Clyde Canal e o Union Canal, separados desde que as onze eclusas de Falkirk foram desmontadas em 1933. Ela foi o nó do meio do Millennium Link, que reabriu 110 km de canal entre Glasgow e Edimburgo.

Episódio 30 · estreia 29 de abril de 2027

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FONTESFontes

  1. David Hayward, "The wheel thing", New Civil Engineer, 13/09/2001 — newcivilengineer.com
  2. "Police close to catching Falkirk Wheel vandals", New Civil Engineer, 02/05/2002 — newcivilengineer.com
  3. David Hayward, "The wheel of fortune", Construction News, 17/05/2001 — constructionnews.co.uk
  4. Engineering Timelines, "Falkirk Wheel" (com base na ficha técnica da Bachy Soletanche) — web.archive.org
  5. John Laverick, "The Falkirk Wheel: building a waterway wonder", The History Press, 2018 — thehistorypress.co.uk
  6. John Kosowatz, "Symbol of the Millennium: The Falkirk Wheel", ASME, 2011 — asme.org
  7. William B. Ashworth Jr., "The Falkirk Wheel", Linda Hall Library — lindahall.org
  8. Scottish Canals, "The Falkirk Wheel" — scottishcanals.co.uk
  9. Scottish Canals, "Scottish Canals Mark 25 Years of the Millennium Link Transformation", 12/05/2026 — scottishcanals.co.uk
  10. Scottish Canals, "Scottish Canals extends major engineering programme on the Forth & Clyde Canal in Falkirk", 29/07/2026 — scottishcanals.co.uk
  11. The Scotsman, "Falkirk Wheel: behind-the-scenes tours to follow unique canal boat lift's biggest overhaul", 28/02/2024 — scotsman.com
  12. Falkirk Local History Society, "Falkirk Wheel" — falkirklocalhistory.club
  13. Forth & Clyde Canal Society, "Canal history" — forthandclyde.org.uk

Imagens

  • Fig. 01 — A roda a meio giro, em 2015: à esquerda, o aqueduto que vem do Union Canal; no centro, uma das gôndolas a caminho do alto: Colin · CC BY-SA 4.0
  • Fig. 02 — Maio de 2001: o novo trecho do Union Canal em obra, no caminho que levaria os barcos até a roda: Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0
  • Fig. 03 — A bacia inferior em obra, com um dos pilares da roda em andaimes e a estrutura do centro de visitantes ao fundo, em 2001: Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0
  • Fig. 04 — Agosto de 2002, três meses depois da inauguração: o aqueduto chega pelo alto e termina na roda, sobre a bacia do Forth & Clyde: KlausFoehl · CC BY-SA 4.0
  • Fig. 05 — As engrenagens que fazem a gôndola girar ao contrário da roda, para que a água e os barcos fiquem sempre na horizontal (2003): Sarah Charlesworth · CC BY-SA 2.0
  • Fig. 06 — O conjunto visto do ar em 2006: do túnel, no alto, ao aqueduto, à roda e à bacia do Forth & Clyde: Ranald McIntyre · CC BY-SA 2.0