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Arquitetura do Impossível
Vista aérea de uma ponte estaiada com viga em treliça vermelha entre duas torres brancas, passando muito acima de um desfiladeiro verde, com um rio estreito no fundo A Ponte de Duge vista de drone, com o rio centenas de metros abaixo do tabuleiro. — Glabb · CC BY-SA 3.0
Obra 32 · Mundo

Ponte de Duge

Divisa entre Duge, no distrito de Shuicheng, Liupanshui, província de Guizhou, e Puli, em Xuanwei, província de Yunnan, China · 2013–2016

Estender uma estrada de 720 metros de vão livre a 565 metros sobre um rio, entre dois paredões de calcário cheio de cavernas onde não havia como erguer um pilar do fundo nem, segundo o Economic Daily, lugar seguro para ancorar os cabos de uma ponte pênsil.

Na divisa entre as províncias de Guizhou e Yunnan, no sudoeste da China, a rodovia G56, que vai de Hangzhou, no leste, até Ruili, na fronteira com Mianmar, precisava atravessar um desfiladeiro de paredões de até 500 metros. De carro, quem ia de Xuanwei a Liupanshui dava a volta pela montanha e levava de quatro a cinco horas, conforme a fonte.

A resposta, aberta ao tráfego em 29 de dezembro de 2016, foi uma ponte estaiada de 720 metros de vão central, com o tabuleiro a 565 metros acima da água. De 2016 a 2025 ela foi a ponte mais alta do mundo. E o detalhe que quase ninguém conta é o que os engenheiros recusaram para chegar a ela: a ponte pênsil, porque, segundo o Economic Daily, não havia rocha confiável onde prender os cabos.

FICHAFicha da obra

NomeEm chinês, Primeira Ponte do Rio Beipan (北盘江第一桥), ou Ponte do Beipan. Fora da China, Ponte de Duge, nome da vila do lado de Guizhou. Durante a obra, Yunnan defendeu chamá-la de Ponte do Rio Nizhu, o curso d'água que ela cruza, na bacia do Beipan.a disputa de nome só aparece na Wikipédia chinesa, sem fonte primária lida2+ fontes
Por quêFechar o trecho entre Bijie e Duge da rodovia G56 Hangzhou–Ruili e ligar Xuanwei, em Yunnan, a Liupanshui, em Guizhou. A viagem caiu para pouco mais de uma hora.o tempo antes da ponte aparece como mais de 4 horas ou como 5 horas, conforme a fonte2+ fontes
TipoPonte estaiada com viga contínua em treliça de aço, em sete vãos de 80, 88, 88, 720, 88, 88 e 80 metros. Torres de concreto em forma de H.2+ fontes
ProjetoCCCC Highway Consultants, do grupo estatal China Communications Construction, com equipe liderada por Peng Yundong. O escritório recebeu a tarefa em 2009, segundo o Economic Daily.o ano de 2009 aparece em uma fonte só2+ fontes
Quem construiuCCCC Second Harbor Engineering, que tocou a obra do lado de Guizhou; o Guizhou Expressway Group aparece como dono da obra. As duas províncias pagaram juntas.o dono da obra aparece em uma fonte só2+ fontes
PrazoInício no fim de 2012 ou em 2013, conforme a fonte; vão central fechado em 10 de setembro de 2016; abertura ao tráfego em 29 de dezembro de 2016, às 9 horas.o Economic Daily dá 27/12/2012; o People's Daily e outros, 2013; há quem cite 2011diverge
Altura565 metros do tabuleiro à água, ou 565,4 metros nas fontes oficiais mais recentes. As fontes não medem do mesmo ponto: o Economic Daily mede até a água na estação seca, o governo de Guizhou fala em fundo do vale, e o Guinness em nível médio de cheia.o número 565 é confirmado; o ponto de referência divergediverge
Medidas1.341,4 metros de comprimento e 720 metros de vão central. Torre de 269 metros do lado de Guizhou e de 247 metros do lado de Yunnan; o topo delas fica a cerca de 740 metros acima do rio.a torre de Yunnan aparece também com 246,5 e 248 metros2+ fontes
MaterialMais de 24 mil toneladas de aço e cerca de 180 mil metros cúbicos de concreto, segundo o People's Daily; 112 pares de estais em leque; 850 mil conjuntos de parafusos de alta resistência, segundo a Jiemian.1 fonte
Fundações264 estacas, cavadas à mão porque a perfuratriz não trabalhava no carste. Quase todas atravessaram cavernas, e onde havia infiltração e areia corrente era preciso injetar calda enquanto se cavava. Estacas de 40 metros, segundo o governo de Guizhou.1 fonte
OperáriosNenhuma fonte consultada publica o total de trabalhadores. A única cifra é de mais de mil engenheiros e técnicos.a cifra de engenheiros e técnicos vem de uma fonte sósem registro
Mortes na construçãoNenhuma fonte consultada registra mortos ou feridos na obra, e nenhuma afirma que não houve acidentes.sem registro
CustoCerca de 1,03 bilhão de yuans, ou 1,028 bilhão, segundo a imprensa chinesa; há registro também de 778,86 milhões de yuans. Nenhuma fonte explica a diferença, que pode ser obra inteira contra só a ponte.sem custo nominal único, não há conversão para valores de hojediverge
ReconhecimentoMedalha Gustav Lindenthal da International Bridge Conference, nos Estados Unidos, em maio de 2018, e certificado do Guinness de ponte mais alta do mundo em setembro de 2018.2+ fontes
O depoisPerdeu o título em 28 de setembro de 2025 para a Huajiang Grand Canyon Bridge, também em Guizhou, com 625 metros. Desde então, é a segunda ponte mais alta do mundo.2+ fontes
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

01Um desfiladeiro na divisa

O sudoeste da China é carste: calcário dissolvido pela água ao longo de milhões de anos, com paredões verticais, cavernas e rios encaixados no fundo de cânions. Em Guizhou, uma rodovia que quisesse andar reto teria de saltar de um paredão para o outro. A G56, que liga Hangzhou, no leste, a Ruili, na fronteira com Mianmar, chegava ali à divisa com Yunnan diante de um desfiladeiro de paredões de até 500 metros.

A ponte seria a obra de controle do trecho entre Bijie e Duge, aquela que define o prazo de todo o resto. O canteiro ficava a cerca de 1.500 metros de altitude, numa região onde geada, neblina, temporais e neve são frequentes, segundo o Economic Daily. Antes de fixar o lugar, uma equipe passou quase dois anos medindo o vento, conta o People's Daily, e o governo de Guizhou registra torre de medição, estação meteorológica e ensaios em túnel de vento. O levantamento geológico levou meio ano, segundo a agência Xinhua.

Guizhou e Yunnan dividiram a conta. Segundo registros da época reunidos na enciclopédia chinesa, Yunnan chegou a defender o nome Ponte do Rio Nizhu, o curso d'água que ela cruza, e Guizhou manteve Primeira Ponte do Beipan.

FIG. 02Julho de 2016: os dois braços do vão central avançam em balanço a partir das torres, dois meses antes de se encontrarem.Eric Sakowski (HighestBridges) · CC BY-SA 4.0

02A ponte pênsil que ficou no papel

Para vencer 720 metros de uma vez, havia dois caminhos. Uma ponte pênsil pendura o tabuleiro em dois cabos principais que passam por cima das torres e terminam presos em blocos de ancoragem, maciços de concreto escavados no terreno de cada margem. Uma ponte estaiada dispensa esses blocos: cada cabo, o estai, sai da torre e vai direto à viga, e as forças se fecham dentro da própria estrutura.

A equipe de projeto considerou a pênsil, conta o Economic Daily, e a descartou. A grande escavação da ancoragem afetaria a estabilidade e a segurança das encostas, numa margem de paredões de 500 metros. E o leito era de carbonato solúvel, cortado por fissuras de dissolução: seria difícil achar um lugar onde a ancoragem pudesse confiar na rocha. Para vãos de 500 a 800 metros em montanha, concluíram, a estaiada com treliça de aço também saía mais barata.

Por isso a imagem que circula, de cabos mergulhando dezenas de metros na rocha, descreve justamente a ponte que não foi feita. Na Ponte de Duge, os 112 pares de estais saem de duas torres de concreto, uma de 269 metros do lado de Guizhou e outra de cerca de 247 metros do lado de Yunnan, e terminam presos à treliça. Nenhum toca o chão.

FIG. 03Da encosta do vale, em julho de 2016: o rio lá embaixo e a ponte ainda aberta no alto.Eric Sakowski (HighestBridges) · CC BY-SA 4.0

03Cavando à mão sobre cavernas

O que de fato desceu dezenas de metros na rocha foram as fundações. Segundo o People's Daily, a ponte tem 264 estacas, e a perfuratriz não conseguia trabalhar no carste: as cavernas eram tantas e tão imprevisíveis que o jeito foi cavar à mão. Quase todas as estacas atravessaram cavernas. O pior caso era encontrar infiltração com areia corrente, e aí era preciso injetar calda para consolidar o terreno enquanto se cavava. As estacas tinham 40 metros, segundo o governo de Guizhou.

Antes disso houve a montanha a subir. O canteiro abriu cerca de 23 quilômetros de acessos e uma linha elétrica de quase cem postes, num serviço de mais de três meses. Um transformador de mais de uma tonelada foi levado morro acima por 32 operários, em quase um mês, segundo o Economic Daily. O vice-gerente do canteiro, Yu Wenhao, gastou três pares de sapatos subindo e descendo a pé durante a abertura dos acessos, conta o People's Daily.

As torres foram erguidas com concreto autoadensável de alto desempenho, bombeado até 269 metros de altura. Depois dos 230 metros, a receita do concreto tinha de ser ajustada quase a cada 20 metros de subida, conta o People's Daily.

FIG. 04Uma das torres e os estais em leque presos à viga de treliça, à beira do paredão.Glabb · CC BY-SA 3.0

04Dois braços sobre o vazio

Sem poder apoiar nada no fundo do desfiladeiro, a viga só podia nascer das bordas. Os trechos laterais, sobre a terra firme, foram empurrados para a posição, um método que o governo de Guizhou descreve como aplicado pela primeira vez numa ponte estaiada. O vão central cresceu em balanço a partir das duas torres, segmento por segmento, cada um pendurado no seu par de estais antes de o seguinte avançar.

Para montar esses segmentos, a CCCC Second Harbor Engineering usou um método em que cada peça era levada ao longo da viga já pronta e içada na ponta. Cada segmento-padrão levava quatro dias, metade do ciclo com o guindaste de tabuleiro convencional, e a obra ganhou três meses, segundo o governo de Guizhou e o perfil do engenheiro-chefe Liao Wanhui, então com 30 anos. Fotos de julho de 2016 mostram os dois braços vermelhos de treliça avançando um contra o outro sobre o cânion, ainda separados.

Eles se encontraram em 10 de setembro de 2016. A precisão pedida na junta de dilatação dá a medida do cuidado: a diferença de altura entre as vigas centrais e as de borda tinha de ficar dentro de meio milímetro, para mais ou para menos, ou um quarto da espessura de uma moeda, nas palavras do Economic Daily. A ponte abriu ao tráfego em 29 de dezembro de 2016.

FIG. 05A ponte ao pôr do sol, em dezembro de 2018.ShakyIsles · CC BY-SA 4.0

05O que não foi registrado

A conta da obra não fecha num número só. A imprensa chinesa fala em cerca de 1,03 bilhão de yuans de investimento total, e outro registro dá 778,86 milhões. Nenhuma fonte consultada explica a diferença, que pode ser a do projeto inteiro contra a da ponte isolada. Sem um valor nominal confiável, não há como trazê-lo para dinheiro de hoje.

Também não há o total de trabalhadores. A única cifra publicada é a de mais de mil engenheiros e técnicos, segundo a Jiemian, que não conta os operários. E não há registro de mortos ou feridos na obra em nenhuma fonte consultada, nem oficial, nem contestado, nem a afirmação contrária de que não houve acidentes. Para uma obra de 2016, o silêncio diz mais sobre o que se publica do que sobre o que aconteceu.

06Nove anos de recorde

Na abertura, a imprensa chinesa anunciou que a ponte superava os 560 metros da ponte do rio Sidu, em Hubei. A comparação depende de onde se mede: o pesquisador americano Eric Sakowski, que mantém o principal catálogo de pontes altas, mede a Sidu em 496 metros até a água, e por essa régua a Ponte de Duge foi a primeira travessia do mundo a passar dos 500 metros. Em 2018 vieram o certificado do Guinness e a Medalha Gustav Lindenthal, um dos principais prêmios internacionais de pontes.

O recorde durou nove anos. Em 28 de setembro de 2025, a Huajiang Grand Canyon Bridge, também em Guizhou, abriu com 625 metros do tabuleiro à água e 1.420 metros de vão. É uma ponte pênsil, justamente o tipo que a Ponte de Duge recusou. Um ano depois, em setembro de 2026, a Xinhua contava mais de 3 milhões de visitas ao complexo turístico montado em torno da nova recordista.

Guizhou tem quase metade das cem pontes mais altas do mundo, segundo a agência Xinhua em 2025. A Ponte de Duge, segunda da lista desde 2025, continua levando a G56 sobre o mesmo desfiladeiro, e a vila de Duge virou mirante, com pousadas abertas por moradores; um deles contou à Xinhua que antes levava quatro horas para chegar à cidade.

MITOSO que circula e o que o registro diz

  • O que circula

    Os cabos da ponte mergulham dezenas de metros na rocha.

    O que o registro diz

    A Ponte de Duge é estaiada: os 112 pares de estais terminam nas torres e na viga, nenhum na rocha. Ancoragem em rocha é coisa de ponte pênsil, e o projeto pênsil foi descartado justamente porque a escavação da ancoragem ameaçaria a estabilidade dos paredões de calcário fissurado, segundo o Economic Daily. O que desceu na rocha foram as 264 estacas de fundação, cavadas à mão.

  • O que circula

    O cânion tem 565 metros de profundidade.

    O que o registro diz

    Os 565 metros são do tabuleiro até a água. A borda dos paredões fica abaixo do tabuleiro, e o topo das torres chega a cerca de 740 metros acima do rio.

  • O que circula

    É a ponte mais alta do mundo.

    O que o registro diz

    Foi, de 29 de dezembro de 2016 a 28 de setembro de 2025. Desde então é a segunda, atrás da Huajiang Grand Canyon Bridge, de 625 metros, também em Guizhou.

  • O que circula

    Ela bateu o recorde anterior por apenas cinco metros.

    O que o registro diz

    Os 560 metros atribuídos à ponte do rio Sidu, na China, são da imprensa chinesa. Medida até a água, a Sidu tem 496 metros, segundo o catálogo HighestBridges; outras fontes dão 500 ou 550 metros, sem dizer de onde medem.

PERGUNTASPerguntas frequentes

Qual a altura da Ponte de Duge?

O tabuleiro fica a 565 metros acima da água, ou 565,4 metros nas fontes oficiais mais recentes; as fontes não medem do mesmo ponto de referência. O topo das torres chega a cerca de 740 metros acima do rio.

A Ponte de Duge ainda é a ponte mais alta do mundo?

Não. Foi a mais alta de 29 de dezembro de 2016 a 28 de setembro de 2025, quando perdeu o título para a Huajiang Grand Canyon Bridge, também em Guizhou, com 625 metros. Desde então é a segunda ponte mais alta do mundo.

Onde fica a Ponte de Duge?

Na divisa entre as províncias de Guizhou e Yunnan, no sudoeste da China, entre Duge, em Liupanshui, e Puli, em Xuanwei. Ela leva a rodovia G56 sobre um desfiladeiro e, em chinês, se chama Primeira Ponte do Rio Beipan.

Como foi construída a Ponte de Duge?

É uma ponte estaiada: o vão central de 720 metros cresceu em balanço a partir das duas torres, segmento por segmento, até os dois braços se encontrarem em 10 de setembro de 2016. As 264 estacas de fundação foram cavadas à mão, porque a perfuratriz não trabalhava no calcário cheio de cavernas.

Quanto custou a Ponte de Duge?

As fontes divergem: cerca de 1,03 bilhão de yuans, segundo a imprensa chinesa, ou 778,86 milhões de yuans, em outro registro. Nenhuma fonte explica a diferença, que pode ser a do projeto inteiro contra a da ponte isolada.

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FONTESFontes

  1. Departamento de Transportes da Província de Guizhou, "杭瑞高速贵州段北盘江大桥建成通车", 30/12/2016 — jt.guizhou.gov.cn
  2. Departamento de Transportes da Província de Guizhou, entrevista sobre a tecnologia de construção da ponte, 09/10/2016 — jt.guizhou.gov.cn
  3. Zhao Hao, "世界第一高桥'炼'成记", People's Daily, edição internacional, 01/12/2023 — paper.people.com.cn
  4. Wu Bingze e Wang Xinwei, "世界第一高桥见证中国质量", Economic Daily, 08/05/2019 — finance.sina.cn
  5. Xinhua, "北盘江大桥:让天堑变通途的'世界高度'", 23/09/2022 — news.cn
  6. China Daily, "Beipanjiang set Guinness record as highest bridge", 20/09/2018 — global.chinadaily.com.cn
  7. Guinness World Records, "Highest cable-stayed bridge" — guinnessworldrecords.com
  8. Jiemian, "这架连接云贵两省的全球第一高桥", 2017 — jiemian.com
  9. Sina, perfil do engenheiro-chefe Liao Wanhui, 10/01/2017 — news.sina.cn
  10. Daily Economic News, via 21jingji, sobre o investimento e a obra conjunta, 02/01/2017 — m.21jingji.com
  11. Eric Sakowski, HighestBridges.com, "Beipanjiang Bridge Duge" — highestbridges.com
  12. Xinhua, "World's tallest bridge opens to traffic in southwest China's Guizhou", 28/09/2025 — english.news.cn
  13. Xinhua, "世界第一高桥通车一年 变身热门文旅打卡地", 28/09/2026 — news.cn
  14. Wikimedia Commons, "Copyright rules by territory/China" (liberdade de panorama) — commons.wikimedia.org

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