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Arquitetura do Impossível
Prédio estreito e alto de fachada clara, visto de baixo a partir da esquina, com base de pedra, fileiras regulares de janelas e uma cornija saliente no topo, contra céu azul O Edifício Ingalls em 2019, na esquina das ruas Fourth e Vine, em Cincinnati. — Warren LeMay · CC0
Obra 23 · Mundo

Edifício Ingalls

Esquina das ruas Fourth e Vine, centro de Cincinnati, Ohio, Estados Unidos · 1902–1904

Erguer 64 metros de escritórios sem nenhuma viga de aço, só com concreto e barras torcidas por dentro, quando, segundo as fontes, nenhum prédio de concreto passava de seis andares e engenheiros respeitados juravam que ele nunca chegaria ao telhado.

Em 1902, na esquina das ruas Fourth e Vine, no centro de Cincinnati, em Ohio, nos Estados Unidos, começou a subir um prédio de escritórios de 64 metros. Até então, segundo as fontes que registram a história da obra, nenhum edifício de concreto no mundo tinha passado de seis andares. Este teria dezesseis, contando o ático, e nenhuma viga de aço.

O investidor era Melville E. Ingalls, presidente de uma grande ferrovia; os arquitetos, Elzner & Anderson; o engenheiro, Henry N. Hooper. O segredo estava escondido no concreto: barras de aço quadradas, torcidas a frio, a técnica patenteada em 1884 pelo engenheiro Ernest L. Ransome. O concreto aguenta bem ser esmagado e muito mal ser puxado. A barra torcida existe para fazer a parte que ele não faz.

FICHAFicha da obra

O que éPrédio de escritórios de concreto armado, reconhecido como o primeiro arranha-céu do mundo construído com esse material. O próprio arquiteto chamou-o, em 1904, de “o primeiro arranha-céu de concreto”.2+ fontes
Quem quisMelville E. Ingalls (1842–1914), presidente da ferrovia Cleveland, Cincinnati, Chicago & St. Louis, a “Big Four”, e do Merchants National Bank. Foi o principal investidor, e o prédio levou o nome dele.2+ fontes
ProjetoOs arquitetos Alfred O. Elzner e George M. Anderson, do escritório Elzner & Anderson, de Cincinnati. O cálculo estrutural é atribuído a Henry N. Hooper, engenheiro-chefe da Ferro-Concrete Construction Company, também de Cincinnati.o artigo de Elzner de 1904 descreve o sistema sem citar Hooper nem Ransome2+ fontes
O sistemaPórtico monolítico de colunas, vigas e lajes de concreto, armado com barras de aço quadradas torcidas a frio, a técnica da patente nº 305.226 de Ernest L. Ransome, de 16/09/1884. Sem vigas em I, sem rebites, sem parafusos.2+ fontes
Quem construiuA construtora W. H. Ellis & Co., que venceu pelo menor preço, segundo a Saxby's Magazine de 1903. Outras fontes dão como construtora a Ferro-Concrete Construction Company, a empresa de Hooper.diverge
PrazoCerca de dois anos para obter a licença da prefeitura. O Hammond Building, que ocupava o terreno, foi demolido em 1902, e a obra começou no outono de 1902. A conclusão aparece como 1903 nas fontes atuais; em meados de 1904, o arquiteto escrevia que o prédio “acaba de ser concluído”.diverge
Ritmo da obraTrês jogos de fôrmas de madeira, reaproveitados de baixo para cima. O Skyscraper Museum fala em uma laje a cada doze dias; outras fontes, em três andares por mês.diverge
OperáriosNenhuma fonte consultada registra quantos trabalharam na obra, nem pico, jornada ou salário.sem registro
Mortes e acidentesNenhuma fonte consultada registra mortos ou feridos na construção, nem número oficial, nem contestado.sem registro
CustoCerca de US$ 500 mil pelo prédio completo, preço de contrato publicado pela Saxby's Magazine em 1903, num texto que elogiava a construtora. Arquiteto e revista afirmavam que o concreto saiu mais barato que o aço.pelo índice de preços ao consumidor dos EUA da série do Federal Reserve de Minneapolis (1903 = 27; 2025 = 967,5), equivale a cerca de US$ 18 milhões de 20251 fonte
Medidas64 m (210 pés) acima da calçada; 71,6 m (235 pés) contando do fundo da fundação. Planta de 15 × 30 m, o terreno inteiro da esquina. Paredes de 20 cm, lajes de 12,7 cm, painéis de 4,9 × 4,9 m.a altura desde a fundação e a espessura das lajes vêm só do artigo do arquiteto2+ fontes
AndaresQuinze andares e um ático completo, “praticamente dezesseis”, segundo o arquiteto. Por isso as fontes falam ora em 15, ora em 16.diverge
FachadaUma placa de 10 a 15 cm presa ao concreto: mármore branco nos três primeiros andares, tijolo cinza vidrado nos onze seguintes e terracota branca vidrada no último andar e na cornija.2+ fontes
ReconhecimentoMarco Histórico Nacional da Engenharia Civil da American Society of Civil Engineers, em 1973 ou 1974, conforme a fonte. Inscrito no National Register of Historic Places em 07/03/1975.diverge
HojeVendido em 2013, depois de anos de abandono foi convertido em hotel: o Courtyard by Marriott Cincinnati Downtown, da SREE Hotels, aberto em julho de 2021. A academia fica dentro do antigo cofre do banco.2+ fontes
2+ fontes Confirmado em duas ou mais fontes independentes.1 fonte Uma fonte só; o texto diz qual.diverge As fontes discordam; mostramos as versões e não escolhemos.sem registro Ninguém registrou. Dizemos isso em vez de inventar.

01Um prédio que ninguém queria licenciar

Na virada do século XX, Cincinnati, em Ohio, era uma cidade de ferrovias e de bancos, e Melville E. Ingalls estava no centro das duas coisas. Advogado formado em Harvard, ele chegara à cidade em 1870 para cuidar de uma ferrovia em apuros e, em 1889, tornou-se presidente da Cleveland, Cincinnati, Chicago & St. Louis, conhecida como Big Four. Presidia também o Merchants National Bank. Para a esquina das ruas Fourth e Vine, onde ficava o velho Hammond Building, ele quis um prédio de escritórios de primeira linha, alto como os novos edifícios de aço.

Só que não seria de aço. Segundo a Saxby's Magazine, revista de Cincinnati, em 1903, os donos compararam orçamentos de um esqueleto de aço e de uma estrutura de concreto, e o concreto saiu mais barato. O problema é que ninguém tinha feito aquilo. A American Society of Civil Engineers registra que o prédio de concreto mais alto da época tinha seis andares, e que Ingalls levou dois anos para conseguir a licença da prefeitura, cujos técnicos duvidavam do projeto.

FIG. 02O centro de Cincinnati fotografado em maio de 1904 do Chamber of Commerce Building; o Edifício Ingalls é o prédio à esquerda.Autor não identificado (The Cincinnati Post, 26/05/1904) · Domínio público

02A barra que torce

O concreto resiste muito bem a ser comprimido e muito mal a ser puxado. Numa viga, a parte de baixo é puxada; numa torre, o vento empurra de lado e faz uma face trabalhar à tração. Sem ajuda, o concreto racha. A ajuda é o aço por dentro, e o problema do aço por dentro é escorregar: uma barra lisa pode se soltar do concreto quando ele fissura.

Em 1884, o engenheiro inglês Ernest L. Ransome, radicado na Califórnia, patenteou a solução: torcer barras quadradas, para que a espiral prendesse o concreto em todo o comprimento. No livro que publicou em 1912, ele conta que a ideia veio ao torcer um elástico de borracha que tinha no bolso, e que, quando apresentou o invento a uma sociedade técnica da Califórnia, foi ridicularizado: diziam que torcer estragava o ferro. O Edifício Ingalls usou barras torcidas a frio em todo o prédio. Ransome, porém, não aparece como autor da obra: o projeto é de Elzner & Anderson, e o cálculo é atribuído a Henry N. Hooper.

FIG. 03Cartão-postal de cerca de 1910, que apresentava o prédio como o maior edifício de concreto do mundo.Autor não identificado (Columbus Metropolitan Library) · Domínio público

03Um bloco só, de cima a baixo

Em junho de 1904, o arquiteto Alfred O. Elzner descreveu o prédio na revista The Architectural Record, num artigo intitulado “O primeiro arranha-céu de concreto”. A estrutura, escreveu, é “uma caixa de concreto de paredes de 8 polegadas”, sem vigas em I, sem cantoneiras, sem rebites e sem parafusos: só barras embutidas no concreto, com as pontas entrelaçadas, formando “um monólito completo de concreto”.

As lajes têm 12,7 cm de espessura e vencem painéis de 4,9 por 4,9 metros. Nas colunas, barras torcidas perto da superfície, em dois lados opostos, recebem o esforço do vento; no centro, barras redondas e lisas ajudam a carregar o peso e vão diminuindo até desaparecer por volta do décimo andar, onde o concreto sozinho bastava. A viga não se prende à coluna com peça nenhuma: as barras de uma entram entre as da outra, e o concreto é um só. As próprias paredes, entre o alto de uma janela e o peitoril da de cima, foram calculadas como vigas, e são elas que travam o prédio contra o vento.

Elzner admitiu que as colunas dos andares de baixo saíram maiores do que precisavam, por “espírito de conservadorismo”, natural numa ruptura tão radical. Por fora, ninguém via o concreto: o prédio foi revestido de mármore branco embaixo, tijolo cinza vidrado no meio e terracota branca no topo, como qualquer arranha-céu da época.

FIG. 04O último andar e a cornija, revestidos de terracota branca vidrada sobre a estrutura de concreto.Hhelvey · CC BY-SA 4.0

04Três jogos de fôrmas

A obra começou no outono de 1902. Para a fundação, abriu-se uma cava de 7,6 metros e, segundo a Biblioteca Pública de Cincinnati, os operários encontraram sob o porão antigo sete poços, abóbadas e cisternas do começo do século XIX. O concreto era misturado ali mesmo, em betoneiras a motor. Quantos homens trabalharam, e se algum se feriu, nenhuma fonte consultada registra.

O Skyscraper Museum, de Nova York, conta que a obra usou três jogos de fôrmas de madeira, desmontados e remontados de baixo para cima, e que se conseguia concretar uma laje a cada doze dias. Era mais lento que o aço: segundo o museu, um esqueleto de aço subia, em geral, mais de duas vezes mais rápido. Elzner rebateu que o primeiro arranha-céu de concreto tinha levado “só alguns meses a mais” que o prédio de aço mais recente da época.

FIG. 05A porta do antigo cofre do banco, em 2021; a sala blindada virou a academia do hotel.Antony-22 · CC BY-SA 4.0

05Os que juravam que ele cairia

Em Cincinnati conta-se até hoje que um repórter passou a noite acordado diante do prédio, esperando vê-lo desabar quando tirassem o escoramento. A própria Biblioteca Pública da cidade apresenta o episódio como “uma história muito contada”, e a Society of Architectural Historians, como tradição local; nenhuma fonte dá o nome do repórter ou do jornal.

O que ficou registrado é mais duro. No artigo de 1904, Elzner escreveu que, durante a obra, “homens de grande capacidade, que deveriam saber mais”, previram que o prédio nunca chegaria ao telhado; que, se chegasse, racharia inteiro com a retração do concreto; e que não resistiria ao vento. “Os fatos são que ele chegou ao telhado, que não há fissuras de retração e que o prédio não só não foi derrubado pelo vento, como nos ventos mais fortes não se percebe nem um tremor.” Como prova, apontou o cofre do banco, de quase cem toneladas, apoiado numa laje de 12,7 centímetros no segundo andar.

O argumento do fogo chegou junto. Em fevereiro de 1904, o grande incêndio de Baltimore destruiu o centro daquela cidade, e Elzner abriu o artigo lembrando que um prédio reformado com colunas, vigas e pisos de concreto ficara de pé no meio da área queimada.

FIG. 06Melville E. Ingalls, o investidor que deu nome ao prédio, em retrato publicado até 1902.Franklin Co., Chicago · Domínio público

06De escritório a hotel

O prédio deu certo, e o concreto entrou nos edifícios altos dos Estados Unidos, devagar: segundo o professor Mir M. Ali, da Universidade de Illinois, até por volta de 1960 raramente um prédio de concreto passou de vinte andares. Em 1973 ou 1974, conforme a fonte, a American Society of Civil Engineers declarou o Edifício Ingalls marco histórico nacional da engenharia civil; em 1975, ele entrou no National Register of Historic Places.

No século XXI, o prédio esvaziou. Foi vendido em 2013 e, quando o projeto de hotel foi anunciado, estava vazio havia cerca de sete anos, segundo a emissora WCPO, de Cincinnati. Em julho de 2021 abriu como Courtyard by Marriott Cincinnati Downtown, da SREE Hotels, com reforma da HGC Construction. A porta blindada do antigo cofre continua lá. A sala que em 1904 servia de prova de que uma laje de concreto aguentava quase cem toneladas hoje é a academia do hotel.

MITOSO que circula e o que o registro diz

  • O que circula

    Um repórter passou a noite acordado esperando o prédio cair, para ser o primeiro a dar a notícia.

    O que o registro diz

    É tradição local, e as próprias fontes a tratam assim: a Biblioteca Pública de Cincinnati fala em “uma história muito contada”, sem nome de repórter nem de jornal. O que está documentado é o arquiteto Alfred O. Elzner, em 1904, contando que engenheiros respeitados previram que o prédio não chegaria ao telhado, racharia com a retração e não resistiria ao vento.

  • O que circula

    O prédio ficou de pé porque era flexível: a flexibilidade venceu a rigidez.

    O que o registro diz

    É o contrário. Ele foi projetado como um monólito rígido, com as lajes funcionando como diafragmas e as paredes como vigas contra o vento, segundo o arquiteto e a American Society of Civil Engineers. Elzner se gabava de que, nos ventos mais fortes, não se percebia nem um tremor.

  • O que circula

    Foi o primeiro prédio de concreto armado do mundo.

    O que o registro diz

    Não. O concreto armado já era usado em prédios baixos, na Europa e nos Estados Unidos, inclusive pelo próprio Ernest Ransome, desde os anos 1880. O Edifício Ingalls é reconhecido como o primeiro arranha-céu de concreto armado.

  • O que circula

    Ernest Ransome projetou o prédio.

    O que o registro diz

    Ransome inventou e patenteou, em 1884, a barra de aço torcida usada no prédio. O projeto é dos arquitetos Elzner & Anderson, e o cálculo estrutural é atribuído ao engenheiro Henry N. Hooper.

PERGUNTASPerguntas frequentes

Por que o Edifício Ingalls é importante?

É reconhecido como o primeiro arranha-céu de concreto armado do mundo: um prédio de escritórios de 64 m em Cincinnati, nos Estados Unidos, erguido sem nenhuma viga de aço quando, segundo as fontes, nenhum prédio de concreto passava de seis andares.

Como foi construído o Edifício Ingalls?

Como um monólito: colunas, vigas e lajes de concreto concretadas juntas, armadas com barras de aço quadradas torcidas a frio, a técnica patenteada por Ernest L. Ransome em 1884. Não há vigas em I, rebites nem parafusos, e três jogos de fôrmas de madeira foram reaproveitados de baixo para cima.

Quem construiu o Edifício Ingalls?

O investidor foi Melville Ingalls, presidente da ferrovia Big Four, e o projeto é dos arquitetos Elzner & Anderson, com cálculo estrutural atribuído ao engenheiro Henry Hooper. Quem executou a obra diverge: uma revista de 1903 cita a construtora W. H. Ellis & Co., que venceu pelo menor preço; outras fontes, a Ferro-Concrete Construction Company, de Hooper.

Quando foi construído o Edifício Ingalls?

A obra começou no outono de 1902. As fontes divergem sobre o fim: a conclusão aparece como 1903 nas fontes atuais, mas em meados de 1904 o arquiteto escrevia que o prédio acabava de ser concluído.

Quantos andares tem o Edifício Ingalls?

Quinze andares e um ático completo, “praticamente dezesseis”, nas palavras do arquiteto; por isso as fontes falam ora em 15, ora em 16. A altura é de 64 m acima da calçada.

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FONTESFontes

  1. A. O. Elzner, "The First Concrete Skyscraper", The Architectural Record, vol. 15, junho de 1904 — archive.org
  2. "Armored Concrete Building Fifteen Stories High — The Ingalls Building at Cincinnati", Saxby's Magazine, Cincinnati, 1903 — digital.cincinnatilibrary.org
  3. Ernest L. Ransome, patente americana nº 305.226, "Building Construction", 16/09/1884 — patents.google.com
  4. Ernest L. Ransome e Alexis Saurbrey, Reinforced Concrete Buildings, McGraw-Hill, 1912 — archive.org
  5. American Society of Civil Engineers, "Ingalls Building", marcos históricos da engenharia civil — asce.org
  6. Society of Architectural Historians, SAH Archipedia, "Ingalls Building" — sah-archipedia.org
  7. Kevin Welch, "Ingalls Building", Biblioteca Pública de Cincinnati e do Condado de Hamilton, 2022 — digital.cincinnatilibrary.org
  8. The Skyscraper Museum, "The Modern Concrete Skyscraper" — skyscraper.org
  9. Mir M. Ali, "Evolution of Concrete Skyscrapers: from Ingalls to Jin Mao", Electronic Journal of Structural Engineering, 2001 — ejsei.com
  10. Council on Tall Buildings and Urban Habitat, The Skyscraper Center, "Ingalls Building" — skyscrapercenter.com
  11. Indiana Historical Society, "Melville E. Ingalls Papers, 1870–1907" — indianahistory.org
  12. WCPO, "Historic Ingalls Building to get new life as hotel" — wcpo.com
  13. SREE Hotels, "SREE Hotels Opens Courtyard by Marriott in Downtown Cincinnati", Hotel-Online, julho de 2021 — hotel-online.com
  14. Federal Reserve Bank of Minneapolis, "Consumer Price Index, 1800–" — minneapolisfed.org

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